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“Felicidade exige contas pagas”


Postado por Elayne Pontual on 19 jan 2012 / 0 Comentário
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Entre ter razão e ser feliz, Wado, cantor e compositor catarinense radicado em Alagoas, escolhe a segunda opção. Assim como boa parte dos artistas que compõem a cena independente do País, ele parece insatisfeito com a falta de reconhecimento financeiro e o volume de trabalhos, que envolve criação, divulgação e produção, e fala sobre a  dificuldade de se manter apenas da atividade musical.

Aos 34 anos, sendo que dez foram dedicados à carreira de músico, Wado sustenta uma obra formada por seis álbuns e várias conquistas que garantem prestígio e boas amizades. Embora tudo isso pareça suficiente, o artista deseja uma vida confortável e afirma a intenção de prestar concurso público para conseguir pagar suas contas: “Vivo mal e estou procurando emprego”, diz.

Apesar das dificuldades, o músico vem colhendo bons frutos desde seu primeiro disco, O Manifesto da Arte Periférica. O álbum é, na verdade, o início de um vasto repertório. Wado participou de grandes eventos como o TIM Festival, formou parceria com artistas como Zeca Baleiro, Maria Alcina e Georges Burdokan e seu nono álbum, Atlântico Negro, foi eleito pela Rolling Stone Brasil o nono melhor disco de 2009.

Em outubro de 2011, o músico lançou, exclusivamente em formato digital, seu novo álbum, Samba 808, avaliado pelo próprio artista como “um borro entre o samba e o funk carioca”. Das dez faixas presentes no disco, sete tem participações especiais. Entre elas, Marcelo Camelo, Zeca Baleiro e Mallu Magalhães. No bate-papo com a Graciliano, ele fala sobre o novo trabalho e o desejo de alcançar o equilíbrio financeiro. Confira

Capa do álbum Samba 808, sexto do cantor e compositor Wado

GRACILIANO – Seu novo álbum, Samba 808, está sendo muito bem recebido pela crítica e está na lista dos melhores discos de 2011. Em alguns desses rankings, está como número um, como na lista do João Paulo Cuenca. Você considera esse ano decisivo para que sua produção chegue ao grande público? Você pensa algo como “é agora ou nunca”?

WADO – Não. Acho, inclusive, que outros discos meus tiveram até uma performance melhor na mídia. O Atlântico Negro, por exemplo, ficou em nono, enquanto o Samba 808 ficou em décimo terceiro na Rolling Stone Brasil. O que acontece agora é que, com as mídias sociais (Facebook), fica mais fácil dividir essas vitórias com as pessoas.

Como se deu o processo de composição e gravação de Samba 808?

Foi tudo gravado em Maceió, por mim e pelo Pedro Ivo Euzébio e mixado por ele. As composições foram surgindo aos poucos e, para as músicas que tínhamos dificuldade em resolver, convidávamos alguém que achássemos com a cara daquela canção. Daí o disco ficou com muitos autores e vozes. Já essas pessoas gravaram em seus estados e encaminharam para nós via internet, hospedando os tracks para baixarmos aqui.

Quantos downloads foram realizados até o momento? Os resultados surpreenderam?

Já passamos de 11.500. Acho que tá bonito sim. Tá reverberando bem. É mais ou menos o triplo do que vendíamos de discos prensados.

A falta de um suporte físico trouxe algum problema?

Tem um problema pra tocar em rádio. Tem um pessoal antigo em rádio que não está muito familiarizado pra baixar e executar. Devemos pensar em como solucionar isso.

Quais as principais referências para a produção do Samba 808? 

Usamos muito como referência de timbre, bandas como Black Keys, Beastie Boys e Fat Boy Slim. Gostamos de timbrar com referências gringas, porque o som em si já é demasiadamente brasileiro. Essas bandas trabalham com muita sujeira e distorção, assim como fizemos nesse álbum, deixando o som bem quente.

Por que Samba 808?

É um borro entre o samba e o funk carioca, dois gêneros essencialmente brasileiros. Tentamos tocar samba com os sons eletrônicos do funk.

Fale sobre os duetos e parcerias presentes no novo álbum.

Tem ali amigos que me orgulho de ter conhecido na minha profissão: Marcelo Camelo, Zeca Baleiro, Mallu, Chico César, André Abujamra e vários outros. Muita gente boa. Funciona, de certa forma, como um aval para me posicionar.

Você abriu mão de ter uma gravadora pelo direito de compartilhar da forma como quisesse o seu álbum. Isso foi decisivo nesses bons frutos que você vem colhendo agora ou atribuiu às parcerias de peso?

Acho que o disco poderia ir mais longe se estivesse numa gravadora. Ser independente tem seus prós e contras, você acumula muitas tarefas. O bom disso é que você não pode culpar ninguém. A culpa é toda sua.

Hoje, uma gravadora não é mais importante na consolidação de uma carreira, visto que as redes sociais são muito eficazes na difusão de informações?

Depende de onde você quer chegar. Para mim, o Facebook tem sido uma mão na roda para que meu trabalho reverbere. Agora, se o cidadão tem aquele sonho anacrônico de estourar na Jovem Pan, tem de entrar em multinacional, passar chapinha no cabelo e comprar calças coloridas (tô brincando).

Um artista passa por transformações. Quais foram as principais mudanças no seu estilo de cantar e compor durante esses 11 anos de carreira?

Acho que me arrisco menos, mas, também desafino menos. Falo mais de amor, que era um tabu para mim.

Para um músico que optou por morar em Alagoas, o que o Estado oferece de positivo e negativo?

Aqui eu tenho minha mãe que é meu pilar na vida. Fora isso, morar em Alagoas ajuda bem pouco.

Você revelou em entrevista recente que planeja prestar concurso público. Ainda pensa assim?

Sim, no fim do mês já faço os primeiros como treinamento.

Além de compositor e cantor, você também é designer gráfico e ilustrou a maior parte dos seus discos. Foi assim com Samba 808? Fale um pouco sobre o projeto gráfico.

Ele tem um desenho da minha tia Márcia Cardeal, e algumas ilustrações de antigos livros de medicina que eu e Pedro Ivo usamos para criar a peça. Acho que ficou bem bonito, clean e classudinho.

Incomoda a ideia de ser mainstream ou é exatamente isso o que você vem perseguindo?

Não sou mainstream, adoraria ser, mas isso está bem longe da minha realidade. Vivo mal e estou procurando emprego. Já tenho uma obra, agora é hora de tentar ser feliz, e felicidade exige contas pagas.

Escrito por Elayne Pontual

Estuda Comunicação Social pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal), com habilitação em Jornalismo, e estagia na Editora da Imprensa Oficial Graciliano Ramos. Siga no Twitter @elaynepontual ou assine no Facebook /elaynepontual

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